Desabafo de uma mãe...

Tudo começou no dia 16 de julho de 2014, uma quarta-feira que seria como outra qualquer. Mas ao amanhecer Guilherme acordou e reclamou muito de dor no pescoço, observei que ele não conseguia virar-se de um lado para o outro e estava queimando de febre, me veio então à dúvida, o que ele tem??? Torcicolo ou será uma caxumba?
Liguei para o médico pediatra dele Dr. Rafael Donha e na mesma hora ele pediu que eu o levasse ao consultório naquela tarde. Começa então a nossa luta...

1° dia / 1°consulta – Quarta-feira dia 16/07/2014 - Fomos ao consultório e ao examinar o Gui o Dr. concordou comigo que poderia sim, ser uma Parotidite “Caxumba”, porém não existem exames específicos e o diagnóstico é somente clínico. Receitou então somente remédio para febre, que estava bem alta, para dor e voltamos para casa.

2° dia – Quinta-feira dia 17/07/2014 – A dor do Guilherme permanecia bastante forte o movimento do pescoço não havia voltado e o inchaço embaixo da orelha era visível, todos os sintomas da caxumba, porém o que me preocupava era a febre dele que não baixava nem um minuto e o pior é que ele não tomava remédio, foi uma quinta-feira difícil.

3° dia / 2° consulta – Sexta-feira 18/07/2014 – Logo cedo falei com o Dr. Rafael ao telefone e informei que o Gui não havia melhorado nem um pouco e pelo contrário a febre só aumentava e eu estava muito preocupada, imediatamente ele me mandou ir ao consultório e coletar exame de sangue para verificar se havia alguma suposta infecção e retornar à tarde para a consulta.

Antes de sair de casa para a consulta por volta de 13h, Gui reclamou de coceira em seu pé, ao retirar o tênis e a meia notei um vermelho enorme que tomava conta de seu pé, como se fosse uma alergia, já fui então ao consultório com mais uma preocupação na cabeça.

Ao examiná-lo o médico não descartou a caxumba, pois o exame de sangue dele não havia dado nenhuma alteração, mas por conta da alergia e da febre alta ele resolveu receitar que o Gui tomasse 04 injeções durante 04 dias já que ele não tomava remédio via oral e como era sexta-feira e final de semana ele não atende na cidade isso faria melhorar até na segunda-feira quando ele retornaria ao consultório para ser examinado novamente. Fomos para a casa achando que estava tudo bem...

4° dia – Sábado 19/07/2014 - mesmo tendo tomado a 1° injeção na noite anterior, Gui não havia apresentado nenhuma melhora e para piorar a situação sua alergia teria aumentado para as mãos e barriga, então logo pela manhã falei com o médico pelo telefone e expliquei a situação, ele achou estranho, pois a injeção era bastante forte e teria que ter apresentado melhora e baixado a febre, mas nada disso acontecia, passamos o dia todo apreensivo, fazia quatro dias que ele não comia nada, tomava apenas a mamadeira de leite e mal tinha ânimo para conversar, passava o dia todo deitado.

Quando foi às 19h fomos ao P.S. tomar a segunda injeção e ao voltar para casa após uns 30 minutos ele teve uma melhora inacreditável, levantou, brincou, comeu, falou, ficamos todos felizes e quando falei com o médico ele se sentiu aliviado, disse que ficou contente pela melhora, então após algumas horas fomos dormir. Antes de dormir ele estava com um pouco de febre e um pouco pra baixo novamente, mas mesmo assim nada que nos preocupou tanto.

5° dia / 3° consulta – Domingo 20/07/2014 – Ao acordarmos o Gui estava de um jeito inacreditável, sua alergia tinha aumentado 100%, sua febre voltou a ser super alta, sua boca estava vermelha e com várias feridas por dentro e por fora e com sangue, ele não conversava muito e apenas dizia que não estava bem.

Liguei na mesma hora ao médico e sabendo que ele não estava na cidade e confiando muito nele falei do meu desespero com o Gui e que estava sem saber o que fazer, tinha noção que meu filho não estava bem e algo sério tinha por vir.

Na mesma hora veio sua segunda hipótese, Gripe H1N1, uma gripe séria, que mata, desesperei mais ainda, chorava e estava sem chão, só conseguia pensar em... “não posso perder meu filho”... Então o médico disse que era para levá-lo ao hospital com urgência e pedir para qualquer médico que o atendesse que o internasse para poder verificar o que realmente ele tinha e no dia seguinte quando ele chegasse à cidade assumiria a internação e daria todos os cuidados possíveis ao Gui.

  • 1° internação – Hospital São Lucas – dia 20/07/2014.

Chegamos ao hospital conforme o médico pediu e o Gui foi atendido pela Dra. Francisca que por acaso havia sido minha pediatra então já era conhecida da família. A mesma examinou o Gui e disse que o caso dele era muito grave, que ele estava com uma estomatite forte, que estava com todas as vias orais inflamadas, garganta e ouvidos, que a alergia do corpo era um tipo de urticária também grave e estaria com uma possível infecção bacteriana, ou seja, descartou a caxumba, então avisou que ele teria que ser internado com urgência e que seu estado era preocupante.

Começou então mais um sofrimento... Ver o Gui daquele jeito, sem falar, sem comer, sentindo muita dor, sua alergia só aumentava, seus olhos estavam vermelhos e sem saber ao certo o que ele tinha, estava em um buraco sem fim!

6° dia – Segunda-feira 21/07/2014 – Após o Gui ter passado o dia anterior inteiro a espera de um médico por fim amanheceu e eu fiquei mais aliviada, pois sabia que nesse dia o médico dele chegava à cidade e ia tomar conta dele, coloquei toda minha confiança nas mãos desse médico e na minha cabeça estava que ele iria descobrir o que realmente o Gui tinha e era somente nele que iria confiar e foi o que eu fiz!

O Dr. Rafael chegou, assumiu o caso do Gui e assim confiei e acreditei que ele iria melhorar.

7° dia – Terça-feira - 22/07/2014 – Já era nosso terceiro dia no hospital, a alergia do Gui tinha melhorado 90%, as feridas externas de sua boca já havia sarado e sua febre já não era mais alta, estávamos cada dia melhor, a única angústia era vê-lo sofrendo para tomar a medicação na veia, seu choro e seu pedido para ir embora cortava meu coração de mãe, ele estava sofrendo, mas eu sabia que aquilo era necessário para ele melhorar.

Uma coisa eu prometi a ele desde o primeiro dia em que chegamos ao hospital, segurando firme sua mão na hora de furar para colocar o soro eu repeti por várias vezes em seu ouvido “a mamãe nunca vai te abandonar, vou estar sempre do seu lado segurando a sua mão”... e foi repetindo isso todas as vezes que ele chorava, todas as vezes que ele sentia dor, todas as vezes em que eu via que ele não estava bem que fomos passando os dias e sua melhora foi aparecendo.

8° dia – Quarta feira – 23/07/2014 – uma boa notícia nos foi dada “vamos para casa”... Estava super feliz, o Gui já estava se alimentado, conversando, sem alergias pelo corpo, sem feridinhas na boca apenas os olhos ainda estavam vermelhos, mas íamos para a casa, tudo tinha acabado... pelo menos era o que achávamos...

O médico foi ao hospital, o examinou e realmente nos deu alta... A única coisa que ainda não estava normal, é que o Gui estava com uma dificuldade enorme para andar, mas por passar todos esses dias somente deitado achamos natural... E fomos para a casa!

Foi um término de dia normal, com muitos mimos e visitas...

9° dia – Quinta-feira - 24/07/2014 – Ao amanhecer o dia estava frio e chuvoso, acordei primeiro que o Gui e estava fazendo serviços de casa quando de repente o escutei gritando mamãe, quando cheguei ao quarto percebi que ele chorava muito e reclamava de dor, ao retirar o edredom de cima dele percebi que ele estava com o corpo todo inchado, e nos locais onde tem “juntas” estavam todos avermelhados e ele não conseguia se mexer, de maneira nenhuma, para nenhum lado, apenas chorava e repetia sem parar “tá doendo muito mamãe”...

Liguei para o médico imediatamente e percebendo o meu desespero e minha angústia ele mandou que eu fosse com urgência ao consultório e coletasse todos os tipos de exames de sangue possíveis, que o caso dele teria que ser estudado e que eu retornasse à tarde no consultório com os exames em mãos que ele o olharia juntamente com outro médico até saber o que ele realmente tinha.

  • A descoberta – Doença de Kawazaki.

Quando retornei ao consultório do médico a tarde, ele preocupou ao ver o estado em que se encontrava o Gui, não falava, não mexia, estava inchado, vermelho e com muita dor no corpo, parecia uma criança tetraplégica, só mexia os olhos... o Dr. Rafael muito preocupado dedicou toda sua tarde ao Gui e disse que iria descobrir o que ele tinha.

Nos exames que ele fez deu negativo a gripe H1N1, mas o exame de infecção estava bastante alto e alguns outros itens apresentavam alterações, mas nada que especificasse o que ele poderia ter. Então o Dr. solicitou que o Gui fosse internado novamente em um hospital maior e com uma estrutura melhor para que fosse possível verificar o que ele tem até descobrir ao certo.

Durante a consulta e após examiná-lo por várias vezes o Dr. falou que ele achava que poderia ser uma doença chamada “Doença de kawazaki”, dito e feito, estava ali naquele achismo dele o que o Gui realmente tinha, foi a partir daí que ele foi atrás, chamou outro médico ligou para especialista na área, procurou informações  e sua dúvida já estava quase concluída.

Naquele momento ele já havia conseguido uma vaga para que o Gui fosse internado no HU para poder ser tratado corretamente, mas eu ainda não sabia ao certo o que era aquela doença. Ao falar com uma especialista na área, uma Dra. Reumatologista Pediátrica, Dra. Érica Naka, ela o informou que não era necessário internar o Gui que ele teria que ir ao consultório dela na manhã do dia seguinte para ela ter certeza que era Kawazaki e nos explicar o tratamento corretamente.

 

  • DESABAFO.

...Quando fui embora do consultório para a casa da minha mãe tinha um ponto de alívio dentro de mim por ter quase certeza que haviam descoberto o que o Gui tinha e que ele seria tratado corretamente, porém ao terminar o dia e ver o estado em que o Gui se encontrava, ver ele deitado em uma cama, sem se movimentar, sem falar, sem comer, sem força para respirar e sabendo que mesmo assim eu teria que aguentar e esperar passar toda aquela noite, aquela madrugada até o dia seguinte para ir à médica o meu desespero maior bateu, o meu coração doía, eu não tinha força, eu não conseguia pensar em nada, em ninguém, tinha esperança, mas o que realmente eu achava é que infelizmente meu bebê não iria aguentar uma noite inteira daquele jeito, passei a noite toda ao lado dele e com muita dor e sofrendo muito por dentro achava que era naquela noite que eu perderia meu filho, dormi segurando a mão dele, pensando positivo e contando as horas para amanhecer logo, pois tinha certeza que ele não iria aguentar e só conseguia pensar que eu estava ali do lado dele, fazendo de tudo para ele aguentar, mas que a qualquer momento ele poderia não estar mais ali tinha uma certeza dentro de mim que era naquela noite que o sofrimento dele acabaria e ele iria descansar em paz...

Mas meu Deus é forte e o dia amanheceu e lá estava ele acordado! Fomos à médica o mais rápido possível!

10° dia – Sexta feira – 25/07/2014 – Chegamos a Dra. Érica e ela o examinou e confirmou doença de kawazaki, começou então a luta contra o tempo, essa doença pode se tornar muito grave se não tratada até o 10° dia, e era nele que estávamos... ele precisava tomar uma medicação que durava 12h e teria que ser tomada dentro de CTI por conter riscos e/ou complicações graves. Como graças a Deus o médico dele já havia conseguido uma vaga para que ele fosse internado no HU, tudo ficou mais fácil, após a Dra. nos explicar tudo direitinho de como era a doença, rapidamente corri com ele para o hospital.

  • 2° Internação – Hospital Universitário – CTI.

Chegamos ao HU e o Gui foi encaminhado ao CTI para começar a medicação que teria que ser tomada o mais rápido possível, pois tempo era o que não tínhamos mais. Com muita sorte consegui com que eu pudesse ficar dentro do CTI com ele... pois tinha uma coisa que eu havia prometido a ele e iria fazer de tudo que fosse possível para cumprir...

“a mamãe nunca vai te abandonar, vou estar sempre do seu lado segurando a sua mão...”

Começou então bem próximo das 12h daquela sexta-feira a luta para a cura do GuiGui, foram as 12h mais demoradas da minha vida, era um dia de muito frio e eu dentro daquele hospital ao lado dele, segurando sua mão, só conseguia orar e pedir a Deus que nos desse o tempo necessário para que a medicação fizesse o efeito esperado e que essa doença fosse passageira e não causasse nada de grave no meu menino...

Durante o dia foi tudo bem, ele tomava a medicação e nenhuma reação apareceu.. por volta de 2:10h da madrugada a medicação acabou e ele graças a Deus não tinha tido nada... A noite passou normalmente o no dia seguinte iríamos para o quarto.

 

11° dia – Sábado 26/07/2014 – Amanheceu o dia, o Gui estava bem melhor, conseguia movimentar os braços e durante a noite até movimentou as pernas sozinho...

Recebemos alta do CTI no fim da manhã e fomos para o quarto, a cada hora que passava o Gui mostrava uma melhora incrível, era uma felicidade inexplicável...Nesse mesmo dia ele já começou a sentar na cama, brincar movimentando os braços e mexia bem as pernas sozinhas... passamos o dia todo muito bem...

12° dia – Domingo 27/06/2014 – Durante a noite de sábado para domingo o Gui conseguiu até virar sozinho para dormir de lado e no domingo de manhã já fomos informados que íamos para a casa, de novo, mas agora seria diferente, eu tinha certeza disso!!!

O Gui só não conseguia andar sozinho, mas estava super bem, animado, conversava e eu sabia que com o passar do tempo tudo voltaria ao normal. Então fomos para casa J

13° dia – Segunda feira 28/07/2014 – nesse dia já apareceu mais um dos sintomas da doença, o último graças a Deus, começou a descascar as mãos dele, isso era normal à médica já havia falado que iria acontecer, isso acontece nos pés também... Nesse dia ele também já conseguiu ficar em pé sozinho para brincar e estava super bem... nossa angustia estava acabando...

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...e com o passar dos dias ele só foi mostrando melhoras com dois dias depois que saiu do hospital já começou a caminhar bem devagar e sozinho... no seu primeiro ecocardiograma não deu nenhum problema, como disse o médico Dr. Marcelo Sallun, o kawazaki passou bem longe de seu ♥... e isso era uma notícia ótima...

Hoje é dia 23/08/2014, e faz exatamente 38 dias que ele está com essa doença. O normal que ela permanece no organismo da criança é 90 dias e a cada dia ela vai sumindo sozinha e aos poucos. Hoje o único tratamento dele é tomar 01 comprimido de AS por dia, ele já voltou a ser uma criança como outra qualquer, brinca, corre, come, faz tudo normal e a cada dia que passa é uma vitória a mais para mim...

 

Fiz esse desabafo para tentar relatar o que eu passei e deixar gravado o meu sincero agradecimento ao médico pediatra do Gui, Dr. Rafael Donha a quem eu confiei com todas as minhas forças, mesmo tendo inúmeras críticas era nele em que eu coloquei a minha confiança e a vida do meu filho, era ele que eu tinha certeza que iria fazer de tudo para que o pior não acontecesse ao Gui, e que se por ventura algo de ruim viesse acontecer, certeza eu também continuaria tendo, que ele iria ter feito tudo que pôde...

Agradecer a minha mãe e ao meu marido pela ajuda e força nesse momento tão difícil!

Agradecer aos padrinhos do Gui, meu irmão Rhay e a minha comadre Simone pela disposição e atenção toda hora que eu precisei...

A todos os meus familiares pelas orações e apoio sem medir esforços...

Agradecer em pensamento e coração a todas as pessoas que dedicaram 01 minuto, 01 segundo de seu tempo para orar pelo Gui, para pedir pelo Gui, para pensar no Gui e para torcer por sua melhora.

Agradecer principalmente a DEUS, por me abençoar e me dar essa graça de manter o Gui ao meu lado, saudável e feliz! Se ele me fez passar por tudo isso é porque sabia que eu seria capaz de suportar e teria forças e condições de não o abandonar.

Hoje me considero uma mãe guerreira, e lembro como se fosse agora eu falando para minha mãe em um desses dias de angustia, “pq isso aconteceu comigo, sou uma mãe tão boa”.. pois é, hoje compreendo que por ser uma mãe tão boa e por ter uma mãe tão boa foi que consegui passar por essa barreira na minha vida sem cair! Hoje eu só quero aproveitar cada minuto com meu Homenzinho... e ter a certeza que ainda temos muito tempo pela frente!!!!

Rhayane Rodrigues